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domingo, 13 de abril de 2008

FORTALEZA E O SONHO DO BELO

Difícil ficar imparcial diante dos últimos acontecimentos em nossa cidade. Confesso que minha inquietação começou quando retornei a Fortaleza depois de quase dois anos ausente, estudando na Bahia. Retornei a minha cidade com olhos de estrangeira, observando mais e aqui compartilho minhas impressões sobre ela, de como vem sendo descuidada por tantos, e ainda “vendida” como destino turístico de “sol e praia”, paraíso litorâneo e moderno; tão longe para mim, neste momento, de ser a Fortaleza bela.
A insatisfação é geral. Assisti pela TV a quase destruição total de um dos edifícios mais antigos de Messejana. Lembrei então, da disputa de gangues para saber qual seria a primeira a pichar o monumento à Iracema, personagem do romancista cearense José de Alencar, erigido dentro da lagoa do bairro. Sem vigilância no local, aconteceu grande depredação da área revitalizada; onde placas informativas foram pichadas, luminárias, grades de proteção e bancos quebrados. Ao que parece, negação por uma identidade local e autodestruição cultural, necessidade de trabalhos de cidadania, educação patrimonial e ambiental, especialmente para crianças e adolescentes.
Fortaleza tem carência de espaços públicos, áreas verdes urbanas, parques e praças onde o citadino possa simplesmente estar. Espaços para a troca, para o diálogo ou somente para apreciar a paisagem. Se negarmos os espaços favorecidos por bares, restaurantes e quiosques, isto é, pelo consumismo, o fortalezense terá dificuldade em encontrar um local onde possa simplesmente estar e “consumir” a paisagem sem atrelar ao assédio da compra e do consumo, sobretudo à noite. Muitas vezes estes espaços são privatizados ou invadidos. Vi algo inacreditável, um desvio no calçadão da Praia do Futuro para que o taxista suba com seu carro à calçada e deixe passageiros na porta da barraca de praia. Está lá, para todo mundo ver esta pequena manifestação de uso indevido do espaço público e desrespeito à cidade.
A Avenida Beira-Mar é palco de situações sociais de difícil resolução; a primeira diz respeito à prostituição, principalmente com estrangeiros. Também vi o caos em que se tornou o calçadão com tantos ambulantes; o mercado persa em que se tornou. Meu sentimento foi de incomodo ao observar visitantes serem abordados e perseguidos por vendedores de passeios turísticos e de como as pessoas utilizam os bancos do calçadão como vitrine de suas mercadorias.
Nunca vi nada igual! Como Turismóloga, fiquei constrangida; por todos; turistas, que compraram o paraíso; profissionais que planejam o turismo da cidade e pelo povo que sem inserção no mercado, trabalham na informalidade, oferecendo todo tipo de serviço ou produto do agrado ou necessidade dos milhares de turistas que nos visitam, na tentativa de conseguir um pouco da “galinha dos ovos de ouro”.
Políticas públicas priorizam divulgação maciça (nacional e internacional) de Fortaleza endossada pela iniciativa privada, incrementando um turismo de pouca sustentabilidade e de efeitos negativos visíveis. Sinceramente, nada contra a divulgação da cidade ou a luta pelos cifrões que a economia do turismo mobiliza, mas acho que precisamos refletir como o turismo vem se desenvolvendo no Ceará. Creio que acabaremos seguindo os caminhos trilhados pela Bahia, há cerca de dez anos, marcada pela violência urbana e social e com imagem negativa de destino turístico que a acompanhou por muito tempo.
Como moradores desta cidade, precisamos de uma cidade democraticamente moderna, boa infra-estrutura e bela. Não somente uma imagem ou paisagem construída para venda turística, ou uma secção de modernidade representada por um pedaço de litoral através da Avenida Beira-Mar ou do bairro do Meireles.
Como diz Gilberto Gil “Oh mundo tão desigual, tudo é tão desigual. Oh, de um lado esse carnaval, do outro a fome total”. Que faremos amigos de Fortaleza? É um milagre ou um pesadelo medonho o turismo que aqui se instala. Que novidade de modernidade sonhamos, que estraçalha, despedaça o nosso sonho de uma Fortaleza Bela.

06/07/2006 Texto originalmente a ser publicado no jornal O POVO, do Ceará.
Maria Evanir Morais de Souza - Mestranda em Arquitetura e Urbanismo – UFBA

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