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domingo, 3 de agosto de 2008

Persépolis

Dias desses quando fui ao cinema de arte do Dragão do Mar, vi um cartaz anunciando o filme animação “Persépolis”, (achei até que já havia passado aqui em Fortaleza, tomara que não e entre logo em cartaz, no mínimo ver em dvd).
O filme é baseado em uma história em quadrinhos da vida de uma mulher desde sua infância, em traços preto-e-branco e muitas sombras, de criação da iraniana Marjane Satrapi; ilustradora, cartunista, desenhista e co-diretora do filme. O filme animado é uma produção francesa que ganhou o Prêmio Especial do júri do Festival de Cannes em 2007. Incrível, como essa criação acontece em um momento em que o Ocidente se volta tanto para o Oriente Médio, devido questões óbvias como as econômicas, mas também pela atração pela religiosidade e pelo poder do exótico que o Oriente exercer sobre o Ocidente. A crítica diz que o filme é tão delicado, inteligente e bonito quanto o quadrinho. Também mostra que no filme a adolescente tem manifestações de egocentrismo e atitudes globalizadas e aborrecidas, ao achar que tem o mundo e todas as revoluções contra si.
Comentei anteriormente que nem sei bem como eu descobri Persépolis; acho que em alguma pesquisa na net ou nesses links de vídeos, do uol ou hotmail. Interessei-me em ver aquele vídeo preto e branco que trazia uma garotinha de aproximadamente 10 anos, a protagonista da história, em pose “revolucionária” e de pijaminha. Rs!
O interessante é que se trata de uma história em quadrinho, mas em formato e acabamento que nem um livro. Quando procurei para comprá-lo ninguém o encontrava nas prateleiras, até que eu falei que se tratava de um quadrinho, foi quando o vendedor “bingo”! Lembrou! Rs! Estava na área de livros infantis. Embora esta história não tenha nada de infantil, tanto que, Persépolis foi adotado pelo currículo de 118 faculdades americanas. Uma visão inovadora de quadrinhos.
Conta da história recente do Irã e sobre o islamismo, alterna entre drama e humor, riso e dor. Mostra através de uma narrativa feminina, acho que até de forma inédita, uma parte do mundo tão desconhecida de nosso saber, rodeada de tantos mistérios. Acho que uma inteligente forma de expressar e socializar com o mundo o que é o Irá, ainda mais tendo como personagem principal uma mulher e sua trajetória, de menina à mulher. Um mundo estranho (pelo menos para mim), onde mulheres estão cobertas de véus; onde existem xás e aiatolás, e até lâmpada mágica. Na verdade, a história em quadrinhos é a própria história da ilustradora Marjane Satrapi, é sua autobiografia, onde narra do seu nascimento no final dos anos 60, sua infância em Teerã, regime fundamentalista, conservador e repressor em 1979, revolução, guerra contra o Iraque, exílio e estudo em Viena e Paris, onde mora até hoje, ao que parece nunca mais retornou ao seu país.
Persepólis é o nome de uma antiga cidade persa, hoje ruínas, e um importante sítio arqueológico utilizado como ponto turístico. Persé(+)polis, pólis já sugere, é plural! Pelo que li sobre a autora, Marjane Satrapi, tão plural e forte quanto sua personagem, Margi. Como é filha de pais modernos, intelectuais e esquerdistas que lutaram contar o fundamentalismo conservador iraniano, tem formação politizada e crítica, principalmente sobre o Irã. Marjane é bonita e possui olhos marcantes. Nas entrevistas em que acompanhei sua fala, parece ser extrovertida e com um forte senso de humor, irônico e sarcástico. Mostra respeito por meu país mesmo não concordando com a repressão, perseguição, torturas e as mortes cometidas no Irã. O Governo iraniano proibiu Persépolis, quadrinhos e filme, e a observa com reservas e antipatia.
Marjane cresceu provocando atos de contravenção em seu país; ao ouvir musicas ocidentais (americanas), deixar seus cabelos ao vento e sem o véu, mascar chiclete, usar tênis All Star e jaqueta que lembrava visual punk nos anos 80, acelerar e dirigir o carro em alta velocidade, beber, ir a festinhas com os amigos, namorar. Conta em entrevistas que seus pais numa atitude de proteção mandaram-na para Viena para estudar, por sua rebeldia e pensamentos modernos e revolucionários não seria bom continuar no Irã.
O quadrinho mostra uma garotinha moderna, inteligente e politizada que morava no Irã, que adorava ler quadrinhos que tratavam das idéias de pensadores e filósofos ocidentais, lendo diversos clássicos da cultura ocidental. Estudou em colégio francês antes do Regime fundamentalista, se diferenciava de suas coleguinhas por ter pensamentos modernos; a educação de seus pais teve papel decisivo em suas posturas políticas, culturais e sociais. (tem uma passagem ótima quando mostra Margi comprando discos como Iron Maiden e Pink Floyd, em esquinas de Teerã, em uma espécie de mercado negro, num ritual, onde homens traficavam música como se fossem drogas).

Persepolis é imperdível, tanto em quadrinhos, animação, quanto no cinema. Os quatro “livros” foram editados pela Companhia das Letras. São ótimos, ricos e muito interessantes em história e muito gostoso de ler.
Onde: Ao Livro Técnico Dom Luis. R$31,00 (cada).

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